Os cães combatentes compartilham de características estruturais (conformação)?

Os cães combatentes compartilham de características estruturais (conformação)?

Fico impressionado como “em terra de cego, quem tem olho é rei”. A moda do “tradicional” voltou? Mas o estranho é que voltou com uma “máscara” de “moderno”.

O mercado do APBT estava frio, bem frio. Muitos dos proprietários deixaram suas atividades, sejam lícitas ou ilícitas. Permaneciam bravamente os criadores, e mesmo assim, muito poucos. As instituições registrando menos, deixando de influenciar e promover através dos seus eventos, uma queda absurda de inscritos, um ambiente perfeito para novas tendências.

Final dos anos 90 e início dos anos 2000 se tornou em solo americano a caça “às bruxas”. As autoridades dos EUA começaram desvendar um a um, cada criatório e canil envolvido em combates entre cães, exterminando centenas de animais durante anos de investigação. Como um país que consegue fazer suas leis funcionarem, praticamente os americanos que participavam dessas atividades ilegais, foram presos ou saíram para países vizinhos que podiam de alguma forma continuar suas atividades. Nos EUA o que restou foi milhares de animais abandonados, sacrificados e humilhados.

No Brasil algumas pessoas levantam uma bandeira que os verdadeiros APBT´s são aqueles tradicionais, que estão exercendo o combate entre cães, mesmo diante de tantos casos, de tantas histórias, essa prática ilegal ainda chama atenção de jovens e pessoas em nosso país. Como o “mercado” canino não é diferente de nenhum outro mercado, o marketing exige que se mostre, promova, divulgue. Hoje com a febre e facilidade de expor conteúdo é variada e acessível, bem democrática, encontramos de tudo na internet, inclusive pessoas que precisam sustentar algumas “verdades“ para sobreviver em um mundo tão competitivo.

A nova “modinha” que trouxeram para o Brasil é que os “cães combatentes” compartilham de características estruturais e de conformação, por isso eles tem rendimento superior. Quem foi que disse que estrutura e dinâmica é um diferencial nos campeões de combates? Pois é, estou besta com isso. Alguém está lendo muito o padrão da ADBA e está querendo descer de “goela a baixo”, achando que nessa terra ninguém tem acesso a história, as informações e a verdades por trás de cada “tendência”.

Se estão querendo deixar os combates de cães ilegais, e querem entrar na conformação e nos esportes caninos, espeitem pelo menos a história da raça, respeite as linhas de sangue, respeitem as pessoas inteligentes que estudam a raça pura apbt, não ignorem a nossa inteligência de pensar, observar e perceber que o mundo não é feito só de uma tendência ou gosto pessoal.

Fiz essa imagem acima, coloquei criadores que desenvolveram suas criações e seleções baseadas no combate entre cães, homens que fizeram suas histórias dentro da raça APBT, são eles: Colby, Benny Bob, Bobby Hall, Pat Patrick, Robert Hemphill, Tom Garner, James Crenshaw, Bert Clouse, Willian J. Lightner, Floyd Boudreaux, Maurice Carver e Jack Williams, teria muitos outros que poderia ter inserido nessa imagem, mas fiz questão de reunir gerações, misturar seleções, alguns desses ainda estão vivos, outros morreram na década de 40. Quando estudamos a raça pura APBT, inevitavelmente vamos nos deparar com esses nomes, essas histórias.

Sou apaixonado por cães vermelhos, pelo trabalho do Colby, Willian J. Lightner, Robert Hemphill, Bert Clouse e Pat Patrick, mas não me faz ignorar trabalhos lendários como o de Floyd Boudreaux e James Crenshaw. Quando estudamos esses criatórios, e vamos a fundo descobrindo atrás de cada relato, de cada contexto, percebemos que as características que esses homens selecionavam não era CONFORMAÇÃO, e sim habilidade e características dentro do quadrado, dentro do jogo, no combate entre cães. Isso é visto nos próprios cães, as vezes irmãos de ninhadas e bem diferentes entre si.

Não adianta me dizer que eram “seleções naturais”, que esses homens quando selecionavam através dos vencedores, estavam selecionando estrutura, conformação, isso é MENTIRA, temos MUITAS DIFERENÇAS na conformação dos Gr Ch´s e Ch´s de combates entre cães. Essa modinha pode atingir quem não conhece a raça, quem não estuda, ou até mesmo pessoas que nunca viram um combatente em ação.

Conheci animal curto, baixo, pesado estruturalmente, com uns 18kg para combate, que não lutava em pé, só ficava deitado, o adversário derrubava ele fácil, mas ninguém conseguia passar muito tempo com ele mordendo o focinho, ele finalizava todas as suas lutas. Mas isso não é regra para combates, quem já vivenciou isso sabe, que tem animais pernaltas, finos, com muito pulmão, habilidade no jogo, que suportava bem o combate, e chegava no final com a vitória através da exaustão do adversário.

O que afirmo com esse texto é: Não podemos fazer de nossas escolhas, uma única tendência. Preciso respeitar a história da raça que me proponho a cria-la. Essa divisão “tradicional” e “moderno” deveria ser extinta em nosso meio, pois o que nos interessa como criadores de raça pura é a procedência. Sabemos que muitos dos “tidos como tradicionais” tem a sua história manchada por lacunas, incertezas e até falsificações, mas muitas criações de origem nos combates entre cães estão bem preservadas, assim como na conformação, nos cães que desde os anos 70 estão longe dos combates entre cães, preservação através da procedência é a chave da união dos criadores de raça pura do pit bull.

Vamos falar de conformação dentro das pistas, sendo avaliados por homens isentos de preconceitos e que saibam o que significa estrutura e dinâmica correlacionado a história da raça. Vamos falar de auto rendimento dentro das provas de esporte caninos, onde de fato podemos readaptar sua função original, e promover um ambiente saudável para nossos familiares, amigos e cães, e assim podermos desfrutar de um momento de competição.

Agradeço por lerem esse texto, deixo meus sinceros agradecimentos, espero que de alguma forma você consiga refletir e sair da “bolha”, não sendo “massa de manobra”. Se você é um apaixonado pela raça, PRESERVE e PROTEJA esses cães do seu completo extermínio. É triste visitar o seu país de origem, e perceber que os grandes criatórios estão praticamente extintos. Não deixe que acabem com o APBT no Brasil!

Fotos